Bento chegou no dia seguinte a postagem anterior a essa, menos de 24 horas depois. Faz dois meses.
Dois meses que parecem minha vida inteira. É como se ele sempre tivesse feito parte, e ao mesmo tempo é uma constante novidade.
Percebi que nas manhãs agitadas ele melhora quando deita sobre mim, ouvidos no coração... talvez ele sinta que meu coração sempre bateu por ele, mesmo sem saber.
Quando fiz o teste de gravidez e deu positivo, me subiu um fogo assim no peito... passou. Senti muito medo, quase enlouqueci, ou enlouqueci mesmo?... Mas essa euforia, eu senti outras vezes nesses meses.
Quando o vi no ultrassom; quando ouvi o coração, tão rapidinho... quando descobri q era menino, ate olhei pro rosto do pai, ele me olhou, não sei dizer o sentido desse olhar.
Era e é uma coisa que vai do coração, pulmão até a garganta... parece que algo irá romper em confetes, mas acaba antes... acaba num suspiro, um sorriso, nos olhos cheio d`água, sabe?
Quando o senti mexer a primeira vez, foi como o inicio de uma amizade... eu tive duvidas ai ele mexeu novamente, pra confirmar que era ele mesmo ali!
No inicio era uma onda fraca, depois ficou mais forte, agora possui um jeito proprio de balançar uma das perninhas, o habito noturno de acordar. As pessoas podem senti-lo, acho que ele reconhece os seus, fica mais mexilão, talvez queira chamar atenção.
Quando pensei em Bento, foi como ouvir a vontade dele pela primeira vez, ele chutando confirmando que era esse o seu nome.
Ontem tive certeza que morreria, a minha vida toda escapava, eu sabia que ia morrer, e continuaria viva.
Mas agora, especialmente hoje, tenho sentido essa euforia o tempo inteiro... e eu sequer recordava que esse conjunto se sensações chamava-se euforia. Esse fogo, esse nó... serão os hormonios dando sinal?
Com tudo isso, eu sei que quando vê-lo, será como enxergar pela primieira vez.
Todas as ultimas palavras, de todas as frases, presentes em todas as musicas, rimam com seu nome, rezam para que fique mais... mais perto do que ainda é possivel.
Meu corpo hoje é dois e antes de ser ele, meu corpo era dois coraçoes batento em mim. A sociedade como Godard disse
a paixão que vem de dentro fala. Tu vens, eu escuto, vejo, sinto. Sinto no sangue e sinto no leite.
35 semanas, ainda não estou pronta pra deixá-lo sair. Ele pertence somente a mim. Eu queria que tudo que me trouxe ele ainda me pertencesse. Talvez eu tenha mais sangue que leite a oferecer.
Espera um tanto mais... a vida se ajeita no nosso ritimo. Filho dessa canção, dessa dança entre sim e não... o que desorganiza, a vida, a cama... mesmo quando esta é só um colchão no chão
Porque prefiro mais uma dose das noites sem fim a fruta mordida ... mesmo te embalando na batida da rede, caso teu sono com a minha inquietação, aquela crise de ansiedade com a minha depressão.
não tenho rumo... e quem tem?
Não vim para ser acento agudo, virgula, um A craseado... sou a reticencia, o que nos dá razão.
Tive um sonho que mais parecia um filme do Buñel, me deixou deveras cansada fisicamente. Acordei como quem estivera trabalhando a noite inteira!
Na rua, caminhando, passo por uma escada de ferro velha, em caracol, num lugar parecido com uma estação de trem.
Havia um senhor, vestido como um professor de educação fisica, com apito e tudo, ele gritava:
"Eles desistem a gente sobe, eles desistem a gente sobe, eles desistem a gente sobe"
E apitava forte
Haviam duas ou três pessoas subido a escada de ferro, com extremo cuidado e certo terror
E diversas pessoas que desciam a escada, algumas gritavam, outras se jogavam dos ultimo lances de escada e caiam aliviadas...
Por algum motivo me atrevi a subir: degraus se desfazendo, presos por gambiarras que pareciam ter sido feitas pelo MacGyver.
Experimentei o temor, o desespero, que via no rosto das pessoas... havia quem passava por mim correndo fazendo a escanda balançar, eu suava de medo.
Havia alguém subindo. Que parecia estar em duvida quanto a prosseguir. E a voz do professor de educação fisica gritanto e apitando
"Eles desistem a gente sobe, eles desistem a gente sobe. Eles desistem a gente sobe"
E eu subia
Subi por horas, passei por degraus de vidro, ventos fortes, o sol... pessoas em desespero. Em algum ponto nao havia mais ninguem e os degraus eram menos deteriorados
A voz, e o apito estavam lá, mais fortes!
"Ele desistem a gente sobe. Eles desistem a gente sobe. Eles desistem a gente sobe"
Acabaram os degraus, não havia nada alem de um fim para o qual nao tive coragem de olhar, era como um precipicio, um nada... esse nadadizer que é a vida!
"Você desiste ou você sobe?"
Alguem perguntou.
Mas eu já subi!
Pensei
Dei meia volta e comecei a descer, descia com cuidado para não atrapalhar os raros que quem ainda subiam. Eu os olhava com compaixão, e pensava no que eles encontrariam, o que fariam? Outros desciam apavorados, maltratando a escada já morta!
Parei
Pensei
Deveria ter me atirado no nada da vida? A imagem do fim dos degraus nao saia da minha cabeça.
Desde que não resisti e comecei a assistir a votação dos deputados sobre o impedimento da presidenta em 17/04, eu nutro um humor pessimo... uma raiva inesplicavel, uma irritação nervosa e ampla dor de estomago.
Ao longo de alguns meses lidando com pessoas totalmente alheias a isso, e com opniões diversas, eu aprendi a não julgar TANTO por isso.
Sempre me ocorre a frase de Fidel:
"Os que abrem o caminho a revolução pacifica. Abrem ao mesmo tempo o caminho a revolução violenta"
Talvez eu devesse tatuar essa frase... a dor que as tatuagens causam em mim, abrandam a dor dos motivos pelos quais elas foram feitas. Afinal, a violencia de foice e martelo, é ao menos mais romantica!
Meu filho nascerá nesse país, o ano de seu nascimento já está marcado por pessoas inteligentes ou espertas, que comentem o erro de achar que somos burros. E até onde nossos corações tem valentia para abafar o barulho das panelas que a classe média nunca soube usar?
O seu rosto desfigura inteiro quando você chora, parece um dinossauro asqueroso.
Sua boca fede e eu tenho nojo...
Haviam beijos em seguida, negação do que fora dito.
Mas eu já não sou ninguém, não sou nada, talvez seja esse o problema.
Eu que sempre achei bonitos, minha boca e dentes... agora nao importa o quanto eu os limpe, o fedor e gosto ruim não acabam
Talvez seja mesmo pelo choro
Nem posso querer culpa-lo
Eu tambem não aguento me olhar.
... parecia uma noite sem fim, talvez pelo relógio que ficava infinitamente marcando a mesma hora, 1:45, estava quebrado, e isso aumentava a ansiedade.
Acho que desde criança eu tinha crises a noite, lembro de ter nove ou dez anos, e só conseguir dormir apos as 4 da manha, eu tinha certeza que ia morrer dormindo se não esperasse acordada. Solução? Passei estudar a tarde.
Mesmo com toda a violência dos nossos desencontros, eu acredito que temos sim uma ligação na qual todas as vezes que eu o chamo por memória, ele escuta, e de alguma forma vem ao meu encontro...
Eu quase morri, ou quase fui morta.
Não entendo como isso foi acontecer... Eu quase fui morta sob a acusação de não ter sentimentos. ESTRANGEIRA!
Prefiro ter esse coração de gelo então, a não ter coração algum...
Certa vez brincamos com cílios caídos, eu desejei que você fosse feliz, independente de mim, de nós... a paixão já escorria entre os dedos, e eu te amava.
Por que você quer fazer isso? Eu disse certa vez.
"Porque você sempre esteve aqui."
Partimos e nos esvaziamos. Eu pude me completar, e agora me sinto um tanto mais inteiro, tudo o que não podemos nos dar. Sigo.
Todos os lugares parecem me expulsar, chego em algum lugar e já desejo ir embora, vou embora, e já desejo voltar...
O melhor lugar sempre é aquele onde eu ainda não estou.
Essa sensação tola que temos no trajeto entre um lugar e outro, a sensação de que tudo ficará melhor quando chegarmos, mas eu sempre chego no lugar errado.
Quantas vezes eu me senti sozinha no mundo? Quantas vezes meu rebento infelizmente sentirá o mesmo? E eu, quantas mais hei de sentir-me assim? Não importa, por hora, pela primeira vez cantarei o oposto de "Haven beside you", pois o céu está dentro... como Camus disse certa vez, que no meio de um inverno finalmente aprende-se que há dentro de si, um verão invencível.
E eu que até agora andei pelo mundo me satisfazendo e me enfadando, para em seguida buscar mais satisfação e mais quereres, sinto agora a necessidade do outro ser finalmente, sinceramente, o meu maior querer.
E talvez seja mesmo um fato, não existe maior brutalidade do que este querer, em ser tudo que é preciso ser, ainda que seja preciso ser o oposto do que queremos ser.
Quando a gente ta sozinho, a maior vontade é chamar alguém pra perto... muitas vezes eu quis a minha mãe, e por mais que ela me abraçasse e me ninasse como a um bebe, eu precisava de mais... talvez se eu pudesse voltar
O meu rebento está aqui dentro, e tudo que ele merece é amor, mas nem sempre as pessoas que deveriam amá-lo, o fazem.
Uma sorte ele ainda não poder sentir-se só... e em partes, é a minha melhor companhia, é também o único e imenso consolo.
Quando a gente ta sozinho, a maior vontade é chamar alguém pra perto... algumas pessoas podem ter sorte de manter babás variadas ao redor
Eu tenho... minha mãe
Cada dia fico um pouco mais perto de sentir o que minha mãe sente... todos os dias eu descubro algo novo, e penso: "era isso que ela sentia!"
E quantas coisas mais ela sentiu e suportou? Uma mulher tão pequenininha que eu não sei como cabe tanto coração.
Vejo que me tornar mãe, também me torna mais filha...
Estou há algumas horas chorando, sem porra de motivo algum... ou talvez seja pela morte do David Bowie, acho que esse é o verdadeiro motivo.
Não há nada relacionado a estar grávida, ou doente e adoecendo gradativamente, pois é como me sinto, apesar do meu amor aumentar com a barriga.
Não há nada de errado por eu sempre me sentir estrangeira, exatamente como Camus descreveu em seu livro, sobretudo nos parágrafos finais, quando ele diz que alguém que tenha vivido um dia em liberdade, possui memoria o bastante para detrair-se com os detalhes do mundo quando em carcere. Acho que a ideia é mais ou menos essa. Gravo bem os últimos parágrafos, pois sempre os leio duas vezes, sendo a primeira antes de iniciar o livro... é como um código entre "eu e mim", que jamais pude reproduzir em Ulisses do Joyce, por motivos óbvios.
Eu diria que o carcere não existe! De modo algum! Sobretudo, aos que precisam do mundo inteiro e sentem-se presos quando em seus quartos, e sentem que este irá lhes engolir o corpo inteiro, e triturar seus ossos com dentes de tijolos e vigas de concreto, talvez haja mesmo um ácido dentro das paredes para auxiliar a digestão.
As vezes o quarto é como a cobra de estimação de uma historia que li outro dia, que ficou semanas sem comer, a bichinha, e quando levada ao veterinário, este explicou a preocupada dona da bichaninha : "ela estava se preparando para comer você"
PS:. sobre meditar, não meditei.
Bipolaridade é solidão sem fim. Gravidez é processo doloroso, talvez com todas, mas perco o controle com frequência, remédios para síndrome do panico, ajudam pouco, trabalhar a mente é difícil, sorte encontrar amigos que fazem meditação, pretendo aprender, começo amanha...
Juro, não cria que fosse verdade, apesar da analise, dos laudos... há semanas eu chorava, repetindo "coitadinho dele, nem tem mãe", Mas, senti-lo mexer, me fez um tanto mais mãe. Eu sou mãe, sou a sua mãe, um dia saberei de tudo, mas nem todos os dias.
Romantizo, como sempre, que tudo irá mudar, com a sua vinda... sei que não irá, mas é acalentador, esperar por olhos infantes me seguindo e sentindo-se seguro ao meu lado. Difícil é que jamais terei a certeza de poder oferecer tal segurança, pois a única redoma que os impede das dores do mundo é minha barriga
Por fim realizo o desejo de ser mãe antes dos trinta, mas isso é vã. Eu poderia já ter sido mãe, e penso todos os dias no filho perdido, talvez seja este, voltando a mim, ou, o mais provável, ele é apenas um acasos biológicos minimamente planejado, e infinitamente amado.